Quando o brasileiro fala que vai morar no Paraguai, a primeira reação da família é o medo: "Cuidado! Lá é perigoso, tem fronteira, tem tráfico!".

A imagem do Paraguai no imaginário popular brasileiro é contaminada por filmes de Hollywood e notícias sensacionalistas sobre a Ponte da Amizade. Mas será que essa é a realidade de quem vive lá?

A resposta curta é: Estatisticamente, o Paraguai é mais seguro que o Brasil.

A taxa de homicídios no Paraguai (aprox. 7 por 100 mil habitantes) é quase três vezes menor que a do Brasil (aprox. 20 por 100 mil). Em Assunção, você raramente ouvirá falar de arrastões em restaurantes ou sequestros relâmpagos, crimes "comuns" em São Paulo ou Rio de Janeiro.

No entanto, o Paraguai tem seus próprios vilões. O crime lá não é o assalto à mão armada violento, é o furto de oportunidade.

Neste dossiê 2026, vamos mapear as "Zonas Vermelhas" de Assunção e Ciudad del Este, explicar o fenômeno dos "Motochorros" e te ensinar a não ser um alvo fácil.


1. O Inimigo Nº 1: Quem são os "Motochorros"?

Se no Brasil o medo é "dois caras numa moto", no Paraguai o nome oficial é Motochorro. Este é o crime que afeta 90% das vítimas urbanas.

  • O Modus Operandi: Eles não querem seu carro ou sua vida. Eles querem seu celular. Eles sobem na calçada, arrancam o aparelho da sua mão enquanto você digita e fogem.

  • A Violência: Geralmente baixa. Eles evitam o confronto. O objetivo é a rapidez.

  • Como evitar: A regra de ouro no Paraguai é: Não use o celular na calçada. Se precisar responder um WhatsApp, entre em uma farmácia ou loja.


2. Assunção: Onde Morar e Onde NÃO Pisar

Assunção é uma capital de contrastes. Uma rua pode ser o metro quadrado mais caro do país e, duas quadras abaixo, começar uma favela perigosa.

✅ As Zonas Seguras (Bolhas de Elite)

Nestes bairros, a segurança é privada e ostensiva. Pode-se caminhar (com atenção) e a vida noturna é vibrante.

  1. Villa Morra / Carmelitas: O coração financeiro e de lazer. Shoppings, hotéis e restaurantes. Policiamento constante.

  2. Manorá / Ykua Satí: Bairros residenciais de classe alta, muito arborizados e tranquilos.

  3. Barrio Las Mercedes: O bairro "hipster" e tradicional, seguro, mas exige atenção à noite por ser menos movimentado.

  4. Eixo Santa Teresa (Ytay): Onde estão os prédios de luxo. Segurança total nas imediações dos edifícios.

❌ As Zonas Vermelhas (Evite a todo custo)

Aqui, o turista ou morador desavisado não deve entrar, nem de carro, nem de Uber.

  1. La Chacarita (Ricardo Brugada): É a favela mais famosa, localizada ironicamente atrás do Congresso Nacional e perto da Costanera. É território hostil. Não entre para "tirar fotos".

  2. Bañado Sur / Bañado Norte: As áreas ribeirinhas periféricas. São zonas de extrema pobreza e refúgio de criminalidade.

  3. Mercado 4 (À Noite): De dia, é um centro comercial caótico e vibrante (onde se compra de tudo). À noite, torna-se deserto e perigoso.

  4. Parque Caballero: Um parque histórico que, infelizmente, foi tomado por usuários de drogas e assaltantes. Evite passeios a pé por lá.


3. Ciudad del Este (CDE): O Caos e a Calmaria

CDE sofre com a má fama da fronteira, mas para quem mora (estudantes de medicina e empresários), a cidade é surpreendentemente tranquila fora do centro comercial.

✅ As Zonas Seguras

  1. Paraná Country Club: É uma cidade dentro da cidade. Condomínio fechado gigante com segurança própria armada. É o lugar mais seguro do Paraguai, mas o custo de vida é altíssimo.

  2. Area 1: Bairro planejado pela Itaipu. Muito arborizado, com pistas de caminhada e patrulhamento frequente. É o "Leblon" da classe média de CDE.

  3. Barrio Boquerón: Ao lado do Lago da República. Área nobre, gastronômica e segura para exercícios físicos.

  4. Km 4 e Km 5 (Avenidas Principais): Onde ficam os novos edifícios residenciais. Seguro pela movimentação.

❌ As Zonas Vermelhas

  1. Microcentro (À Noite): A área de compras (perto da Ponte) é segura de dia devido ao movimento. Após às 17h, as lojas fecham e vira uma cidade fantasma perigosa.

  2. Barrio Remansito: Fica na beira do Rio Paraná, abaixo da ponte. É zona de contrabando e tráfico. Não circule por lá.

  3. San Rafael: Outro bairro ribeirinho com índices de criminalidade mais altos.


4. A Polícia e a "Coima" (Propina)

Segurança pública também envolve confiar na polícia. No Paraguai, a Policía Nacional e a Patrulla Caminera (Polícia Rodoviária) têm uma reputação manchada pela corrupção.

  • A "Coima": É o pedido de propina. Policiais podem parar carros com placas brasileiras (ou dirigidos por brasileiros) procurando "pelo em ovo" (extintor vencido, luz queimada) para pedir dinheiro.

  • Como se defender:

    1. Tenha tudo em dia: Cédula Verde (documento do carro), Habilitação e Kit de Segurança.

    2. Não pague: Seja educado, mostre que está gravando (dashcam ou celular no painel ajuda muito) e peça a multa oficial ("Boleta"). Geralmente, quando veem que você não vai ceder e está correto, eles liberam.

    3. Respeite a Lei: O brasileiro tem o hábito de furar sinal ou não usar cinto. No Paraguai, isso é chamariz para extorsão.


5. Segurança para Mulheres e Estudantes

Para as estudantes de medicina que voltam da faculdade à noite:

  • Assédio na Rua: Infelizmente, a cultura do "fiu-fiu" ainda é forte no Paraguai. É mais incômodo do que perigoso fisicamente, mas acontece.

  • Uber/Bolt: São seguros e muito baratos. Em CDE e Assunção, não vale a pena caminhar 15 minutos à noite sozinha. Pague R$ 10,00 numa corrida de Bolt e garanta sua integridade.

  • Furtos em Repúblicas: Cuidado ao dividir apartamento. Furtos de notebooks dentro de repúblicas estudantis são comuns.


6. O Fenômeno dos "Peajeros"

Em áreas periféricas ou estradas vicinais à noite, existem os "Peajeros" (pedágio). Grupos que bloqueiam a rua e cobram um valor para deixar passar ou assaltam.

  • Dica: Evite cortar caminho por dentro de bairros desconhecidos (favelas) seguindo o GPS cegamente. Mantenha-se nas avenidas principais iluminadas.


Conclusão: É seguro morar no Paraguai?

Se você vem de cidades violentas do Brasil, o Paraguai será um oásis de paz. Você verá pessoas sentadas na calçada tomando tereré com a porta de casa aberta. Você verá carros de luxo estacionados na rua sem blindagem.

A sensação de segurança real é muito maior que no Brasil. O crime violento (latrocínio) é raro. O risco real é o descuido.

Se você morar nos bairros certos (Area 1 em CDE ou Villa Morra em Assunção) e não andar com o iPhone 16 Pro Max na mão na beira da estrada, sua vida será muito mais tranquila do que em qualquer capital brasileira.


Perguntas Frequentes (FAQ)

Posso andar com carro blindado no Paraguai? Pode, mas é raríssimo. Apenas políticos de alto escalão e megaempresários usam. Diferente do Rio/SP, blindagem não é um item "necessário" para a classe média alta.

É perigoso andar de ônibus? Os ônibus em Assunção e CDE costumam ser velhos e cheios. O risco aqui é o "batedor de carteira" (punguista). Mantenha a mochila na frente. Assaltos à mão armada dentro de ônibus são incomuns.

A fronteira seca (Ponta Porã/Pedro Juan) é perigosa? Pedro Juan Caballero (PJC) é uma cidade com alto índice de homicídios, mas eles são focados. É uma guerra entre facções do tráfico. O estudante ou morador comum raramente é alvo, a menos que esteja no lugar errado na hora errada (bares de reputação duvidosa na madrugada).